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Shiatsu e a formação de recursos humanos

por Daniel Luz. Tempo médio de leitura: aproximadamente 8 minutos.

Clinico com shiatsu faz quinze anos e, ao longo desse período, estive constantemente em contato com a formação em shiatsuterapia (ou, simplesmente, shiatsu) disponível no mercado carioca. Considero-a insatisfatória, no geral: observo que os recém-formados padecem de diversos males que vão desde dores e problemas de saúde diversos, originários da aplicação de uma técnica falha, até o desconhecimento do alcance terapêutico da arte, muitas vezes percebida confusamente como uma técnica complementar da racionalidade biomédica (ou medicina ocidental), cujas categorias de diagnose substituem as categorias originais da tradição de onde surge o shiatsu: a racionalidade médica chinesa.
Cabe destacar os incontáveis os relatos que ouço de pessoas que, terminando uma formação em shiatsu, não conseguem sequer se manter atuantes na clínica devido aos problemas da saúde de que passam a sofrer em decorrência da prática, vivendo a estranha contradição de temer uma agenda cheia.
Escrevi este artigo, com base em minha experiência de treze anos coordenando cursos livres de shiatsu, com o intuito de ajudar o interessado a avaliar as propostas de ensino disponíveis no mercado.

Histórico

O shiatsu é uma forma de intervenção da racionalidade médica chinesa desenvolvida no Japão. Este país já possuía uma antiga tradição de massagem, originária da China, chamada anma ou amma (do chinês an mo, pressionar e esfregar), desenvolvida a partir do período Edo (1603-1867). Inicialmente praticada por cegos, o anma não tem como centro de sua atenção clínica as categorias de canais ou de cavidades (jing e xue, comumente traduzidos como meridianos e pontos) e possivelmente por isso foi lentamente perdendo prestígio na comparação com os diagnósticos sofisticados de outras formas da racionalidade médica chinesa – como o tratamento com remédios ou acupuntura – chegando ao final do século XIX rotulado de massagem estritamente relaxante e para o prazer, únicos objetivos para os quais era licenciada (recentemente os aspectos terapêuticos do anma têm sido recuperados pelo trabalho do prof. Mochizuki Shogo, radicado nos EUA, que editou alguns livros sobre sua tradição familiar de anma com grande sucesso).

O trabalho de regulagem da vitalidade centrado na utilização das possibilidades terapêuticas específicas dos canais e cavidades através de técnicas de toque popularizou-se no mundo todo a partir do Japão com o shiatsu, que significa literalmente shi, dedos e atsu, apertar. A arte foi batizada por Tamai Tempaku, ao publicar, em 1919, um livro chamado Shiatsu Ho (método de shiatsu, ou de pressão com os dedos). Não se deve, portanto, imaginar que o shiatsu seja uma técnica milenar da sabedoria oriental ou coisa semelhante – muito pelo contrário, é um desenvolvimento recentíssimo em termos da história da racionalidade médica chinesa, somente tendo sido regulamentado em seu país de origem por um conjunto de leis promulgado entre 1955 e 1964.

Como e por quê funciona

O shiatsu é uma modalidade terapêutica da racionalidade médica chinesa e, como as demais, tem sua intervenção orientada para a reconfiguração da ordem vital. Através da pressão no corpo do paciente, o shiatsuterapeuta a um só tempo adquire informações e envia comandos de reconfiguração dessa ordem, valendo-se da rede de canais e das cavidades para tanto. Essa atividade de toque atua em dois planos principais. O primeiro, das configurações do qi e do Sangue, especialmente no tocante à sua circulação. O segundo é o plano do shen ou espírito.

Atuando no qi e no Sangue
Entende-se que estas duas grandes manifestações da vitalidade do ser humano conformam um par yinyang, onde o Sangue representa o yin e o qi (genericamente falando) representa o yang. Para haver boa circulação do Sangue, é preciso haver o qi a dinamizá-lo. Por outro lado, para evitar a dispersão do qi é preciso que este se ancore no Sangue. Em resumo, a tendência yin (estagnar e descer) do Sangue e a tendência yang (dispersar e ascender) do qi se regulam mutuamente.

Em relação ao toque, as manobras objetivam incrementar (otimizando o estado geral da circulação), regular (desfazendo bloqueios e restaurando o sentido normal do fluxo do qi em caso de contrafluxo) e ainda dragar os canais e remover estagnação provocadas pelo frio, umidade etc, de origem externa bem como interna. Pode-se ainda usar o toque para invocar as propriedades terapêuticas características de cada uma das cavidades.

Atuando no shen
Na medicina chinesa o tato é o sentido atribuído ao elemento fogo e, portanto, ao Coração. Como o Coração é o coordenador maior de toda a atividade psíquica e afetiva do ser, de sua capacidade de intermediar o interno (subjetivo) e o externo (objetivo) e, portanto, de sua própria sanidade mental, esta assertiva da Tradição é da maior importância para o massagista. O toque é a via de excelência para a comunicação entre os Corações do praticante e o do paciente e é através dele que é possível dizer, muito claramente, que se está cuidando de um paciente, e não examinando ou diagnosticando um portador de alguma patologia. Para que essa comunicação aconteça, contudo, é fundamental que o toque seja firmemente inspirado pela sensibilidade, ou seja, que não se trate de um toque mecânico, fundamentado em alguma diagnose prévia e aplicado a despeito dos sinais que o corpo do paciente dê. Uma diagnose prévia pode – ou não – existir, mas deve estar sempre em segundo plano em relação à realidade que o toque revela, a qual pode muito bem ter sido encoberta pelo próprio relato do paciente.
A partir da qualidade da comunicação entre o paciente e o terapeuta é que vai se formar o elo terapêutico, sabidamente parte integrante e indissociável da clínica e fator determinante de sua eficácia. Na prática, através do tato o Coração do paciente percebe o retorno que as sensações do toque em seu corpo promovem no terapeuta: se uma região dói, faz cócegas ou gera uma sensação de vulnerabilidade, inconscientemente o paciente espera que o terapeuta reaja a isso. Se o toque continua mecanicamente, ignorando as variações das diversas áreas por onde passa, a mensagem que o Coração do paciente recebe é: “eu não entendo você”. Por outro lado, se a cada sensação diferente a natureza do toque se modifica, a mensagem é “mas como é que ele sabe”? O paciente então se sente verdadeiramente assistido e se permite relaxar profundamente, sabedor de que o toque não representa uma ameaça para ele. Ora, o que chamamos de relaxamento nada mais é do que um outro patamar de qualidade na circulação do qi e do Sangue. Efetivamente, o toque aplicado nesse contexto é mais eficaz, pois suas diretrizes são tanto melhor compreendidas pelo organismo quanto menos emperrada está a circulação das vitalidades. Com o tempo, o corpo associa o toque à sensação de bem-estar e termina por reinterpretar mesmo toques profundos e doloridos como agradáveis.

Formação

A partir do que vimos, podemos definir dois grandes eixos ao longo dos quais se deve desenvolver a formação do shiatsuterapeuta. Um deles é a formação propriamente na racionalidade médica chinesa, onde o aluno precisa compreender a riqueza da sua maneira específica de descrever o corpo, a mente, o espírito, o cosmo e as relações entre esses planos que é a vida. Para tanto a categoria racionalidade médica, desenvolvida pela professora doutora Madel T. Luz no Projeto Racionalidades Médicas, do IMS/UERJ, traz uma grande contribuição, por apresentar o conhecimento tradicional chinês de maneira muito familiar, racional e de fácil compreensão. Uma racionalidade médica se compõe de cinco dimensões, ancoradas numa sexta que é a própria cosmologia daquela cultura. As cinco dimensões são a) morfologia, ou uma descrição do corpo; b) dinâmica vital, onde se explica como a vida se estrutura e acontece; c) doutrina médica, que reúne explicações racionais sobre a natureza do adoecer e seu curso; d) diagnose e e) terapêutica.

Um outro plano é o desenvolvimento da sensibilidade e da técnica do toque, que andam de mãos dadas. Para tanto são necessários treinamentos específicos, para regular o qi, tonificar a forma (xing, a forma física) e acalmar o espírito, fundamental para desenvolver a capacidade de “ouvir com os dedos”. Tais treinamentos raramente fazem parte do currículo de formação em shiatsu. Aparentemente, diversas outras disciplinas superficialmente tratadas são consideradas mais importantes para a formação do profissional, mesmo que pertençam a outro saber médico e não tenham nenhuma articulação com a clínica.

Conclusão

Enquanto os cursos de formação estiverem mais preocupados com o número de mensalidades que o aluno paga para se formar do que com o que realmente funciona na clínica do shiatsu, continuaremos a ver o ingresso de profissionais medíocres no mercado, confusos em relação à racionalidade médica onde estão inseridos e com uma técnica de toque precária e pouco resolutiva, que atenta contra a reputação da arte. Esses profissionais, em sua grande maioria sinceros e bem-intencionados, ainda vão ter que enfrentar dores nas costas, desgaste da essência renal, LER etc. advindos de seu despreparo técnico, o que naturalmente contribui para uma prática ainda mais medíocre. Afinal, como pode fazer um bom shiatsu quem está cheio de dores nas mãos e nas costas… e de dúvidas no Coração?

Comentários

  1. claudia disse:

    gostaria de uma indicação de curso em Shiatsu em São Paulo.

  2. Alessandra Madeo disse:

    Maravilhoso texto! Tudo o que instintivamente eu sentia sobre o shiatsu e o toque, vocês escreveram cm saberdoria e alicerce! Parabéns!!! Como a colega acima, também gostaria de algumas indicações de cursos em São Paulo

    Obrigada,

    Alessandra Madeo

  3. Maria do Carmo Castro disse:

    Adorei o texto. Você pode me mandar informações sobre o seu curso de Shiatsu?

  4. Marinete Furlanetto disse:

    Gostei do texto.Estou sempre querendo saber mais sobre shiatsuterapia.Um abraço.

  5. Toshiro disse:

    Gostei muito do texto, concordando diretamente com a “Alessandra Madeo” no segundo comentário ,é tudo o que “instintivamente” sinto sobre o shiatsu e o toque, desde pequeno sempre tive “tino” para massagem sem ao menos saber da existencia do shiatsu e de quaisquer outra modalidade, trabalhando no Japão , tive a grande felicidade de aprender o shiatsu na prática mas a infelicidade de ter uma péssima professora em que somente fui tomar verdadeiro conhecimento na minha volta ao Brasil, quero ser um bom profissional e preciso do aprendizado teórico mas estou perdido por onde começar ou a quem recorrer, quem puder me dar uma luz meu mail, email hidden; JavaScript is required

    Obrigado.

  6. Noemi disse:

    É muito gratificante ter conhecimento de um profisional que ama seu “trabalho”, e tenta explicar de modo concreto algumos parametros de esta arte que é o shiatsu.

  7. Adriana Botelho disse:

    Adorei o texto e cada vez mais me sinto no caminho certo que é alcançar a qualidade que desejo pra mim como pressoterapeuta.
    Grata

  8. Carmen Silvia Finger disse:

    Também pratico shiatsu há 15 anos, me mantenho no mercado porque meu shiatsu é diferenciado e não me atenho simplesmente a técnica. Sentir com os dedos e o coração´é imprescindível. Concordo plenamente com voce em relaçao à formação de shiatsuterapeutas. Gostei muito do texto.

  9. felipe mello disse:

    É verdade: o coração, a percepção, a psicologia, a visão terapêutica, o toque, sentimento na ponta dos dedos, tudo isso em primeiro lugar, porém o que vemos é o interesse financeiro, tanto nos cursos como nos profissionais, as terapias chinesas são um sacerdócio, uma vocação, e não um interesse, quando os seres humanos perceberem o quanto é necessário ter a MTC em suas vidas, nós seres humanos chegaremos a sublimação, a elevação de nossos sentimentos e sentidos, será com certeza um mundo melhor de se viver, por enquanto as pessoas tem medo, e alguns profissionais até ciúmes, mas acho que dentro em breve teremos espaço para podermos trabalhar e ajudar a quem necessita.
    Um abraço a todos dessa homepage.

  10. Hélio Pedrosa de Resende disse:

    Na condição de seu colega, com 20 anos de atuação profissional em clínica e ensino de Shiatsu e Acupuntura venho aqui elogiar o seu artigo, que é muito lúcido e oportuno. Compartilho de sua opinião com relação à precariedade da formação de Shiatsuterapeutas no Brasil. Esta “má formação genética” resulta no nascimento de praticantes com “deficiências congênitas” muito sérias, no tocante ao conhecimento técnico, à ética e à condição física e psicológica. Considero de suma importância suas colocações e vejo que precisamos fortalecer os fatores de resistência à depreciação do Shiatsu. Um abraço .
    Hélio Pedrosa de Resende

  11. Nadja Onila Köth disse:

    Parabéns! Concordo plenamente com o autor do artigo. Sou massoterapeuta e estudante do MBA Gestão em Ergonomia em Curitiba.
    Adoro a minha profissão, utilizo a técnica do Shiatsu à quatro anos.
    Sinceramente, espero que a massoterapia e as intervenções terapêuticas sejam valorizadas em nosso país. Porém é importante ressaltar o amor ao próximo, a busca do equilíbrio e muita dedicação aos pacientes. O resultado é positivo quando existe a harmonia entre paciente, massoterapeuta e a Energia Universal.
    Um abraço e boas vibraçôes à todos!

  12. Luana Batista disse:

    Tive um primeiro contato com estudo do Shiatsu recentemente e percebi que vai muito alem do que alguns profissionais falam. Este texto expressa com muita sensibilidade esta diferença. Parabéns e obrigada.

  13. Alexandra disse:

    Também trabalho com shiatsu há 14 anos e adorei seu texto.
    Inclusive estou desenvolvendo um trabalho científico sobre a atuação do shiatsu no SUS como tratamento não-farmacológico.
    Se todos puderem me ajudar com conteúdos e experiencias,desde já agradeço
    Alexandra S. Fonseca

  14. Camila disse:

    Gostaria de saber quais são os riscos ergonômicos do shiatsuterapeuta.

  15. Fernando Paulo Silva disse:

    Sou estudante de ZEN SHIATSU estou percebendo
    o quanto é abrangente esta técnica.O texto é
    excelente e de grande responsabilidade profi
    cional.Você esta de parabens.
    Gostaria de citar parte do texto no meu trabalho de conclusão de curso.

    Um Abraço

  16. Daniel Luz disse:

    Olá Fernando,

    Fico feliz que o texto tenha lhe interessado. Naturalmente, você pode citá-lo no seu trabalho, bastando seguir as normas da BN para citações de material da WWW.

    Um abraço,
    Daniel.